Com a Selic em 14,00% ao ano — patamar confirmado pelo Copom em agosto de 2026, após o quarto corte consecutivo do ciclo de afrouxamento monetário — a renda fixa voltou a ser protagonista nas conversas sobre onde guardar dinheiro. E a dúvida que mais aparece nos comentários e mensagens de leitores deste site é sempre a mesma: Tesouro Direto ou CDB, qual rende mais? A resposta curta é “depende”, mas a resposta útil exige entender por que depende, e é isso que este artigo se propõe a resolver.
O que os dois produtos têm em comum
Tesouro Direto e CDB são, ambos, formas de emprestar dinheiro — um para o governo federal, outro para um banco — em troca de uma remuneração combinada previamente. Os dois têm tributação pela tabela regressiva do Imposto de Renda, que reduz a alíquota conforme o prazo de aplicação aumenta, partindo de 22,5% para resgates em até 180 dias até chegar a 15% para aplicações mantidas por mais de 720 dias. Os dois podem ser comprados por qualquer pessoa física com conta em corretora, a partir de valores relativamente baixos, e os dois têm variações pós-fixadas, prefixadas e atreladas à inflação.
A diferença relevante não está no formato — está em quem garante o pagamento e em como cada um se comporta dentro desse patamar de Selic a 14%.
Quem garante cada um
O Tesouro Direto tem a garantia do Tesouro Nacional: é considerado o investimento de menor risco de crédito do país, porque o governo federal controla a própria moeda e, historicamente, a probabilidade de calote em títulos públicos domésticos é tratada como praticamente nula nas análises de mercado. Já o CDB é uma dívida de um banco específico, e depende da saúde financeira daquela instituição. Para mitigar esse risco, existe o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira em caso de quebra do banco emissor.
Na prática, para valores dentro do limite do FGC, o risco de crédito de um CDB de banco pequeno ou médio se torna comparável ao de um CDB de banco grande — o que abre espaço para bancos menores pagarem taxas mais atrativas (por exemplo, 115% ou 120% do CDI) para atrair depositantes, já que o risco extra fica coberto pelo fundo garantidor até aquele teto.

Comparando a rentabilidade com a Selic a 14%
O Tesouro Selic paga uma taxa muito próxima da Selic, com um pequeno deságio ligado à taxa de custódia cobrada pela B3 (0,20% ao ano sobre o valor investido, isenta para os primeiros R$ 10 mil aplicados no caso de Tesouro Selic). Já o CDI, referência da maior parte dos CDBs pós-fixados, costuma ficar marginalmente abaixo da Selic — a diferença histórica gira em torno de 0,10 ponto percentual. Isso significa que um CDB que paga 100% do CDI rende, na prática, um pouco menos do que a própria Selic, antes de considerar taxas.
É aqui que entra o fator decisivo: a maioria dos CDBs oferecidos por corretoras independentes hoje em dia não paga 100% do CDI — paga entre 100% e 130%, dependendo do prazo, da liquidez e do porte do banco emissor. Um CDB de 115% do CDI, por exemplo, supera com folga o Tesouro Selic líquido de taxa de custódia. Segundo dados de mercado, CDBs pós-fixados a 100% do CDI renderam cerca de 14,49% brutos nos 12 meses até janeiro de 2026 — já mais alto que a própria Selic do período, refletindo o comportamento do CDI naquele intervalo específico.
| Critério | Tesouro Selic | CDB (100%-130% do CDI) |
|---|---|---|
| Garantia | Tesouro Nacional | FGC até R$ 250 mil |
| Liquidez | D+1, alta simplicidade | Varia: diária a vencimento fixo |
| Taxa de custódia B3 | 0,20% ao ano (isenta até R$ 10 mil) | Não há |
| Rentabilidade típica | Próxima à Selic | Pode superar a Selic em CDBs acima de 100% do CDI |
| Melhor uso | Reserva de emergência, prazos curtos | Prazos de 2 a 5 anos, quando a taxa oferecida compensa |
Um exemplo numérico para sair da teoria
Suponha um investimento de R$ 20.000 mantido por três anos. No Tesouro Selic, considerando rentabilidade próxima à Selic média do período (assumindo 13% ao ano como média ao longo dos três anos, já que a taxa deve seguir em trajetória de queda gradual) e descontando a taxa de custódia de 0,20% sobre o valor que excede R$ 10 mil, o saldo bruto acumulado fica próximo de R$ 28.500, antes do IR. Em um CDB de 115% do CDI, com o mesmo cenário de taxa básica, a rentabilidade bruta aproximada seria de 14,9% ao ano, levando o saldo a algo perto de R$ 30.400 no mesmo período — sem taxa de custódia, já que CDBs não cobram esse tipo de taxa.
A diferença de quase R$ 1.900 nesse exemplo, ainda que pareça modesta em termos percentuais, mostra por que vale a pena comparar taxas antes de decidir. Depois da tributação regressiva de 15% (por se tratar de aplicação acima de 720 dias, igual nos dois casos), a vantagem proporcional se mantém, porque a alíquota é a mesma nos dois produtos para o mesmo prazo.
Quando o Tesouro Selic ainda faz mais sentido
Apesar do CDB frequentemente superar o Tesouro Selic em rentabilidade bruta quando a taxa oferecida passa de 100% do CDI, existem cenários em que o título público continua sendo a escolha mais sensata. O principal deles é a reserva de emergência: para esse objetivo, o critério mais importante não é rentabilidade máxima, é simplicidade e previsibilidade de resgate. O Tesouro Selic tem liquidez diária com resgate processado em D+1, sem depender de a corretora ter “comprador” para aquele título específico, e sem risco de crédito de banco nenhum — só o risco soberano, considerado o menor do mercado brasileiro.
CDBs de liquidez diária também existem, e funcionam de forma parecida, mas nem todos os emissores oferecem essa modalidade com boas taxas — muitas vezes, o CDB de liquidez diária paga menos que 100% do CDI justamente por oferecer resgate a qualquer momento. Antes de escolher um CDB para a reserva de emergência, é fundamental conferir se a liquidez é realmente diária e qual a taxa efetivamente contratada, não apenas a taxa “de tabela” anunciada.
O erro mais comum ao comparar as duas opções
Um equívoco recorrente entre investidores iniciantes é comparar a taxa “de tabela” do CDB anunciada pela corretora com a rentabilidade líquida que aparece no extrato do Tesouro Direto, sem considerar que os dois passam pelo mesmo tipo de tributação. Outro erro é ignorar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que incide sobre resgates feitos em menos de 30 dias em ambos os produtos, seguindo uma tabela regressiva que começa em 96% do rendimento no primeiro dia e some completamente a partir do trigésimo dia. Para quem pretende deixar o dinheiro aplicado por mais de um mês, o IOF não chega a ser relevante — mas para quem pensa em resgatar em poucos dias, ele pode consumir quase todo o rendimento do período, independentemente de ser Tesouro ou CDB.
Há também quem compare apenas o número percentual anunciado sem considerar a base sobre a qual ele incide. Um CDB de “12% ao ano” prefixado não é diretamente comparável a um CDB de “100% do CDI” pós-fixado sem projetar o cenário de juros: se a Selic cair mais do que o mercado espera, o prefixado de 12% pode acabar rendendo mais que o pós-fixado; se a Selic cair menos, pode acontecer o contrário. Por isso, comparação de rentabilidade só faz sentido dentro da mesma categoria — pós-fixado com pós-fixado, prefixado com prefixado — ou usando simulações que projetem cenários diferentes de Selic até o vencimento.
O papel do prazo na decisão
Para objetivos de curto prazo, até dois anos, a diferença de rentabilidade entre Tesouro Selic e CDB costuma ser pequena o suficiente para que a simplicidade do título público compense. Já para objetivos de médio e longo prazo — entre três e cinco anos, por exemplo, juntar entrada de imóvel ou reserva para trocar de carro — CDBs com taxas acima de 110% do CDI tendem a entregar um resultado final visivelmente superior, especialmente quando reinvestidos ao longo do tempo.
Vale lembrar que CDBs prefixados e atrelados ao IPCA também existem, e mudam completamente essa análise: um CDB prefixado trava uma taxa fixa hoje, o que pode ser vantajoso se a expectativa de mercado for de queda futura da Selic, e desvantajoso se a Selic subir de novo. Essa modalidade exige mais atenção ao cenário macroeconômico e não é recomendada para quem está começando sem entender o mecanismo.
Como decidir na prática
Uma forma simples de organizar a decisão é separar os objetivos por prazo e liquidez necessária antes de escolher o produto. Reserva de emergência e gastos previstos para os próximos 12 meses combinam melhor com Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária de taxa competitiva. Já para valores que não serão tocados nos próximos anos, vale comparar diretamente as taxas de CDB disponíveis na sua corretora — muitas plataformas mostram um comparador de CDBs por prazo e taxa, o que facilita bastante essa escolha sem precisar calcular manualmente.
Antes de decidir, também é importante lembrar que os dois produtos aqui discutidos são categorias de renda fixa, não recomendações de compra deste ou daquele papel específico. A escolha entre eles — e o quanto alocar em cada um — depende do seu perfil de risco, do seu horizonte de tempo e dos seus objetivos financeiros. Para decisões que envolvem valores relevantes do seu patrimônio, o ideal é buscar orientação de um planejador financeiro certificado (CFP) ou assessor de investimentos registrado na CVM, que pode avaliar sua situação de forma individualizada — este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui essa análise personalizada.
Liquidez também tem custo escondido
Um detalhe que passa despercebido por muita gente é que a liquidez tem preço. Um CDB de liquidez diária, que permite resgate a qualquer momento sem perda de rentabilidade contratada, quase sempre paga uma taxa menor do que um CDB de vencimento fixo em dois ou três anos, do mesmo banco. Isso acontece porque o banco consegue planejar melhor o uso daquele dinheiro quando sabe que ele ficará “preso” por um período determinado, e repassa parte dessa vantagem ao investidor na forma de taxa maior.
Isso cria uma armadilha comum: pessoas que não vão precisar do dinheiro no curto prazo acabam escolhendo produtos de liquidez diária “por precaução”, abrindo mão de rentabilidade sem necessidade real. Se o objetivo é claro — juntar para um carro daqui a três anos, por exemplo — travar um CDB com vencimento compatível com esse prazo, a uma taxa mais alta, costuma ser mais vantajoso do que manter tudo em produtos de liquidez diária o tempo todo. A reserva de emergência é a exceção: ali, sim, a liquidez importa mais do que os pontos percentuais extras.

O que muda se a Selic continuar caindo
Um ponto que merece atenção de quem está decidindo agora: com o ciclo de cortes da Selic em curso, tanto o Tesouro Selic quanto os CDBs pós-fixados tendem a render proporcionalmente menos nos próximos meses, já que ambos acompanham a taxa básica. Isso não muda a comparação relativa entre os dois produtos — CDBs acima de 100% do CDI continuam tendendo a superar o Tesouro Selic, na mesma proporção —, mas muda a expectativa de retorno absoluto. Quem está pensando em travar uma taxa melhor por mais tempo pode considerar CDBs prefixados de prazo mais longo, desde que compreenda o risco de a Selic subir de novo antes do vencimento, o que tornaria o prefixado menos vantajoso em comparação retroativa.
Para quem quer entender melhor esse mecanismo antes de escolher entre pós-fixado, prefixado e híbrido, vale complementar a leitura com o conteúdo específico sobre investimentos para iniciantes disponível neste site, que detalha cada modalidade separadamente.
No fim, a pergunta “Tesouro ou CDB, qual rende mais” tem uma resposta que muda conforme a taxa específica oferecida, o prazo e a instituição emissora — não existe vencedor fixo entre os dois. O que existe é um método de comparação: olhar a taxa relativa ao CDI ou à Selic, considerar a garantia, o prazo até precisar do dinheiro e a liquidez necessária, e só então decidir. Quem aplica esse método sistematicamente, revisando as opções a cada nova aplicação em vez de repetir sempre o mesmo produto por hábito, tende a extrair um resultado consistentemente melhor da própria renda fixa ao longo dos anos.

Ricardo Mendes é pesquisador de finanças pessoais e escritor focado em educação financeira prática, dedicado a ajudar leitores a organizar suas finanças, tomar decisões econômicas mais conscientes e construir estabilidade financeira de longo prazo por meio de planejamento e gestão responsável do dinheiro.